1969 - Caetano Veloso (Irene)


1. Irene
(Caetano Veloso)

2. The empty boat
(Caetano Veloso)

3. Marinheiro só
(Caetano Veloso)

4. Lost in the paradise
(Caetano Veloso)

5. Atrás Do Trio Elétrico
(Caetano Veloso)

6. Os argonautas
(Caetano Veloso)

7. Carolina
(Chico Buarque)

8. Cambalache
(E. S. Discépolo)

9. Não identificado
(Caetano Veloso)

10. Chuvas de Verão
(Fernando Lobo )

11. Acrilírico
(Caetano Veloso, Rogério Duprat)

12. Alfômega
(Gilberto Gil)

Comentários: 
"Gravei só com Gilberto Gil ao violão, quando estava confinado, sem poder sair de Salvador. Até ir para o exílio em Londres, era impensável eu tocar violão num LP. Todo mundo achava meu violão abaixo do nível profissional. É um disco da minha situação na prisão. Tem Irene, que fiz na cadeia, sem violão, uma coisa portuguesa, que adoro. Gosto muito de sermos portugueses. Adorei a canção Portuga, do último disco do Cazuza. Tem Os Argonautas, que me foi sugerida por Bethânia. Tem Carolina, que é muito deprimida e tinha a ver com o disco. Fiz o disco confinado, gravamos eu e Gil lá em casa, num gravador de quatro canais. Tem Atrás do Trio, Elétrico, que é histórica. É o momento inaugural de toda a fase nova da música baiana. Tenho orgulho. Desencadeou o incremento dos trios elétricos. Fez Dodô e Osmar voltarem às ruas. A complementação dela veio com o Gil, na música Filhos de Gandhi. Foi o estopim para a onda de novos blocos. Resultou em tudo isso, na música da Bahia."
Depoimento à Marcia Cezimbra  - Jornal do Brasil - 16/05/91 

"Marinheiro só" é folclore, domínio público. Acho que saiu em algum disco como de minha autoria. Há a tradição de dar autoria automática a quem “adapta” a obra (vem da música clássica). Mas, em casos como esse, sou contra. Miles Davis botou 'Prenda minha' como sendo de sua autoria. Pode pôr em qualquer lugar que 'Marinheiro só' não é minha. Não é não." - Caetano Veloso

Acrilírico
É um caso raro de texto que escrevi sem ser para letra de música. Também não sabia se era prosa ou poesia. O meu interesse era pelas palavras inventadas, pela mistura que eu podia fazer com elas, conforme eu tinha visto na revista dos poetas concretos, sobretudo na “Invenção”, que Augusto de Campos me deu de presente. Eu achei aquilo tudo muito próximo do que me interessava, e escrevi o “Acrilírico”. O acrílico era um material muito novo, tinha justo aparecido, e como o texto tem várias reminiscências, a palavra acrilírico dava uma espécie de nó no tempo. Eu tinha acabado de sair da prisão e estava confinado na Bahia quando gravei a canção. Durante a gravação, o Rogério Duarte insistiu comigo para que eu mudasse o verso final: “Acrílico Santo Amargo da Putrificação”. Ele fez uma campanha danada para eu não colocar “putrificação”, dando àquilo um caráter meio religioso mas também com argumentos muito bem pensados, que acabaram me impressionando, e que não eram diretamente religiosos. Ele dizia assim: “É o nome da santa padroeira da sua cidade, isso é uma carga muito pesada, as pessoas da sua família, seu pai, sua mãe, vão ouvir...”. Eu nunca me preocupava muito com as pessoas da minha família porque eles não se melindravam com nada, mas a argumentação do Rogério era forte, no geral, e sugeria um quadro capaz de desencadear forças negativas. Bem, era 69.
Algum tempo depois, Augusto de Campos me pediu permissão para se referir ao verso, porque ele se lembrava do uso da palavra “putrificação” na versão original e isso o remeteu ao dear dirty Dublin, de Joyce. Eu contei toda a história ao Augusto e disse que não me opunha absolutamente a ele citar a imagem original e lhe expliquei que só a retirara durante a gravação por causa das preocupações de Rogério Duarte. O mais engraçado porém é que, nessa ocasião, quando falei sobre o caso com o Rogério, ele me disse: “Ah, mas você sabe quem foi que me vendeu aquele grilo? Foi o André Midani”. O Midani era o presidente da Polygram, a gravadora! Eu acho que, do ponto de vista do texto, é importante a manutenção de “Acrílico Santo Amargo da Putrificação”, que é muito mais forte e mais bonito. Também seria demagógico evitar a imagem, porque eu adoro Santo Amaro e, hoje em dia, embora não seja religioso nem queira ser, sou devoto de Nossa Senhora da Purificação. E “putrificação” dizia e diz muita coisa sobre a cidade, que vem apresentando muitos sinais de degeneração urbana e social, sobretudo de deterioração do ambiente, por causa da poluição química, violentíssima nessas décadas de intensa industrialização.
Penso que há muita verdade no termo “putrificação”, que, para além da referência a Santo Amaro, é radicalmente contra uma imagem idílica das cidades do interior do Brasil, sobretudo das do Nordeste. E acho que Nossa Senhora da Purificação me faz mais forte por eu ter coragem de manter essa visão crítica, inconformada e algo que revoltada, que reconhece as nossas mazelas. A vida brasileira é muito problemática e é ruim querer esconder isso.
Quanto à primeira parte da imagem, “amaro” é “amargo” em italiano. Existe esse nome, Amargo, como nome de homem na Espanha, pelo menos em algumas peças e poemas de Lorca, assim como há para mulheres nomes como Martírios e Dolores. Em A casa de Bernarda Alba, de Lorca, uma das moças se chama Angústias. Então, eu julgava que Amaro fosse um nome italiano de homem que significava mesmo “amargo”, como para os espanhóis. Mas terminei por descobrir que, na verdade, Santo Amaro é São Mauro e que teria havido uma corruptela do nome. As biografias dos santos registram Santo Amaro ou São Mauro. E Mauro quer dizer mouro. O interessante é que lá em Santo Amaro se cultiva cana-de-açúcar desde sempre. É por isso que em outra canção, “Trilhos urbanos”, falo: “Cana doce, santo amaro”. Ao lado do doce, outra vez, o amargo. Caetano Veloso, 2003, Sobre as letras

Opinião da casa: 

Aqui começa um esboço de como serão os discos de Caetano daqui em diante, apesar da qualidade técnica precária com que foi gravado, soa muito bem até hoje. Começando com "Irene" com seu palíndromo ("irene ri") que tem uma gravação despojada e excelente, seguido por  "The empty boat", a adaptação de "Marinheiro só" - samba de roda com coro, prato e guitarra -  e "Lost in the paradise", a segunda em inglês, também um lado-b (que teve uma versão definitiva na voz de Gal em seu primeiro disco solo, "Gal Costa", 1969), quase sempre esquecida. (Update: foi gavada recentemente no EP Itunes Sessions).
Tem "Atrás do trio elétrico", popular nos carnavais até hoje. "Os argonautas", tema que remete ao verso de Fernando Pessoa, feita para Bethânia (e gravada por ela em 1969 no disco "Ao vivo", também por Elis Regina no disco "Ela" de 1971), a versão de "Carolina" que Chico Buarque não gostou...
 (…)  e ficou magoado, tanto assim que a sua reação negativa chegou a ser publicada. Ele deve ter-se perguntado o porquê de alguém se debruçar sobre uma canção à qual ele não dava grande importância. Carolina havia se tornado um hit nacional. E eu, na cadeia, na Bahia, via Carolina ser cantada naqueles programas infantis pré-Xuxa, por aquelas crianças baianas de sotaque carregado e de cara de gente pobre. E, além disso, havia um disco chamado “As Favoritas do Presidente Costa e Silva”, com dez canções cantadas por Agnaldo Rayol. Uma delas era Carolina. Então eu escolhi Carolina entre outras canções para representar o grau de depressão em que a gente estava.
Revista do CD, entrevista a J.J Moraes - 05/1992
A releitura do tango "Cambalache"- crítico e dramático, como definiu Augusto de Campos.
Na sequência o hit "Não identificado" em versão cheia de sons não identificados, psicodélicos (vale ouvir só por uma saída de áudio para reparar na gravação guia apenas com voz e violão). "Chuvas de verão", de Fernando Lobo (pai de Edu), achado de Caetano em boa interpretação.
Por fim, merecendo destaque especial, a canto-falada poesia-experiência "Acrilírico", feita em parceria com o maestro Rogério Duprat, e "Alfômega" que é a maior ousadia e desbunde do disco com um canto arrastado de Caetano e os vocais gritados de Gil. Um disco de despedida acenando o exílio.

8 comentários:

Anônimo disse...

olá!, só para avisar que o link do disco remixado foi bloqueado pelo mediafire por violação de direitos autorais.

em tempo, parabéns pelo trabalho de formiguinha. genialidade total.

Pedro Progresso disse...

E muito obrigado pelo elogio!
=)

Downloader1917 disse...

Rapaz, esse é um dos melhores blogs que eu já. Além da obra completa do gênio Caetano, tem descrições dos albuns. Parabéns pelo excelente trabalho.

Carlos De Nicola disse...

Obrigado! Os comentários são ótimos e dão um gostinho a mais na audição do álbum.

Felipe disse...

Meu disco favorito. Meu blog preferido sobre Caê. Tens importância na permanência e na pesquisa do artista. Obrigado

Tibério Lobo disse...

Certamente a obra-prima dele, não consigo entender como tem gente que prefere o Transa, que pode ser magnífico mas mas não tanto como este. O querido "Álbum Branco" é um desbunde de ecletismo e o melhor representante do que é a Tropicália em disco. Os overdubs do Duprat são antológicos - sobretudo porque ele era o maestro da tropicália, entendedor e divulgador desta filosofia que é muito mais do que estética.

Roni Válence disse...

Quem é a pessoa que esquece de cantar com Caetano IRENE, obrigando a reiniciar a música?

Pedro Progresso disse...

oi Roni,
é Gilberto Gil. posso procurar o texto mas de cabeça eu lembro q ele gravou voz guia e violão de base com Gil e depois os outros arranjos de orquestra foram acrescentados por outros produtores.