1978 - Muito (dentro da estrela azulada)


1. Terra
(Caetano Veloso)

2. Tempo De Estio
(Caetano Veloso)

3. Muito Romântico
(Caetano Veloso)

4. Quem Cochicha O Rabo Espicha
(Jorge Ben)

5. Eu Sei Que Vou Te Amar
(Vinícius de Moraes, Tom Jobim)

6. Muito
(Caetano Veloso)

7. Sampa
(Caetano Veloso)

8. Love Love Love
(Caetano Veloso)

9. Cá-Já
(Caetano Veloso)

10. São João, Xangô Menino
(Caetano Veloso, Gilberto Gil)

11. Eu Te Amo
(Caetano Veloso)

Comentários: 
Foi o disco mais pichado pela crítica, o maior fracasso de vendas. E tem Terra e Sampa. Se existe essa fama de que eu brigo muito com a crítica, ela surgiu em Muito. Eu fiquei irado. Fazia nos shows comícios contra a crítica. Nem queria citar o nome dessas pessoas que não tem nada. Uma mistura de Sílvio Lancelotti com Maria Helena Dutra e mais aquele Geraldo Mayrink, que torciam para a pasteurização de Los Angeles, sentiram-se agredidos. O Geraldo Mayrink foi tão idiota, que escolheu dois versos pra provar que minha capacidade poética tinha se esgotado, um de São João Xangô Menino, que era uma citação de Luiz Gonzaga, outro de Eu Te Amo, que era de Ary Barroso. O disco não vendeu nada, uns 30.000, numa época que Bethânia vendia 700.000 e Chico, 500.000. O rádio nunca tocou e a PolyGram é cúmplice disso. Uma canção como Terra nunca tocar no rádio? Os programadores de rádio são burros, reacionários e só servem ao que há de mais medíocre. Gente colonizada, pequena, merece ser humilhada. O brasileiro é merecedor dessa humilhação. Jamais perdoei. Diziam que a canção era longa, de sete minutos, e eu estou por aqui de ouvir uma porcaria de dez minutos do Dire Straits. O povo canta Terra. Eu ouvi no show da Praia de Botafogo 50.000 pessoas cantanto a letra toda de Terra. É isto que me interessa. Se tem alguma coisa que vale no meu trabalho é por causa disso. Se não vendeu, o Brasil não presta. Se fico assim agora, imagine na época. Depoimento à Marcia Cezimbra - Jornal do Brasil - 16/05/91 
Terra / SampaSabe aquele filme 'Guerra nas Estrelas'? Quando eu vejo filmes que tem espaço... '2001', por exemplo, que eu nunca mais revi e acho lindo... mas quando eu vejo aquele espaço enorme nos filmes me dá vertigem. Se eu deitar assim e olhar o céu estrelado num lugar que eu não vejo mais nada, eu sinto que eu posso desprender da Terra e voltar. Já conversei com outras pessoas e elas também sentem isso. Eu sinto muito forte essa vertigem, e me dá uma angústia terrível. E no 'Guerra nas Estrelas' me deu, um pouco, mas o filme é mais leve. E esse filme tem uma coisa: o planeta Terra não é nem citado, nem aparece, parece que não existe, é uma coisa bem longe da Terra. Então eu senti essa impressão de saudade. Eu me lembro logo da primeira ou segunda semana que eu estava na cadeia e o pessoal me levou revistas que tinham as primeiras fotografias da Terra, tiradas de fora. E uma era uma coisa maravilhosa, tinha a Terra inteira. Eu esperava ver os continentes, mas era tudo coberto de nuvens. Tudo isso, depois que eu vi o filme, me deu uma impressão muito grande de que havia uma tensão poética... e na época eu também achei. Eu pensava: 'Como é que eu estou aqui, num espaço tão limitado que mal dá pra eu me mexer e ao mesmo tempo eu estou vendo uma foto da Terra toda, tirada de um espaço tão ilimitado'... achei que tinha uma tensão poética nesse lance e me lembrei disso, tanto que comecei a música já citando essa coisa. É uma música confessional, de explicação. Eu comecei a escrever essa música fazendo a letra, primeiro, o que é uma coisa muito rara, ultimamente, porque muito raramente eu faço letra antes da música: sai junto ou eu faço a música antes, quase todas. Essa letra eu fiz antes, e era diferente da que veio a ser a letra da música, mas a ideia básica era a mesma. Ela era mais nordestina, mais bem 'escrita', entre aspas, mais João Cabral de Mello Neto. Depois que eu botei música ficou mais desarrumada, e eu achei mais bonito, mais a ideia mesmo do que eu queria dizer. Agora, 'Sampa' eu também acho uma transa de amor muito forte. Você vê que não existem muitas expressões de amor à cidade de São Paulo como a que há nessa música. E foi tudo casual, também você sabe, eu estava fazendo um programa de televisão e me pediram um depoimento sobre São Paulo e eu fiz, pensando em tudo o que era São Paulo pra mim, e saiu uma canção joia, mesmo. Então eu adoro o disco, ele é cheio dessas coisas. Acho que amor, mesmo, é o tema dele. Mas é um disco inteiramente sem uma ideia anterior, porque na verdade ele nasceu daquele show do teatro Clara Nunes, no início do ano, e aquele show não tinha nenhuma ideia preestabelecida. Foi uma coisa muito solta. Nesse sentido ele é muito qualquer coisa. Mas é lindo.
Entrevista a Ana Maria Bahiana - O Globo, 20/08/1978 
Opinião da casa: 

Disco de hits e o primeiro com a Outra Banda da Terra. Na época foi pichado à beça, mas é um clássico. Embora eu goste mais dessas canções em gravações posteriores de Caetano, elas estão aqui em boas versões e com arranjos competentes. "Tempo de estio" ficou ótima, carioquíssima; "Muito romântico" (gravada por Roberto Carlos um ano antes) não é das minhas preferidas, mas a letra é muito boa. 

"Muito" está entre minhas 5 músicas favoritas de Caetano, com aquele bolerinho no final, genial. "Love, love, love" não fica muito atrás, assim como a ecológica "Cá-já". A versão de "Eu te amo" ao piano também vale a atenção.

6 comentários:

Eliel disse...

Fracasso de vendas com direito a discurso revoltado do Caê?! Esse eu tenho que ouvir!

Anônimo disse...

Maria Helena Dutra e Geraldo Mayrink já morreram de câncer, Sílvio Lancellotti que se cuide...

Anônimo disse...

esse geraldo mayrink é um cara burro

Ricardo Becker Maçaneiro disse...

Quase caí da cadeira quando li que esse disco foi um fracasso, pois é o meu preferido do Caetano...

Unknown disse...

Disco maravilhoso, tal qual esse gênio brilhante de Caetano! O bom de certos críticos (aqueles que não são competentes para este trabalho tão importante) é que o que produzem logo, logo se transforma em material reciclável para limpeza nos canis!

AbsonSany disse...

O que me deixa curioso é que esse disco é, em estética e em conteúdo propriamente dito, tão lindo e foi pichado?! Independente disso, virou meu favorito desde a primeira vez que eu o ouvi - e isso já faz taaanto tempo... hahahaha!