1979 - Cinema Transcendental




1. Lua de São Jorge 
(Caetano Veloso)

2. Oração ao Tempo
(Caetano Veloso)

3. Beleza Pura
(Caetano Veloso)

4. Menino Do Rio
(Caetano Veloso)

5. Vampiro
(Jorge Mautner)

6. Elegia
(Augusto de Campos, Péricles R. Cavalcanti)

7. Trilhos urbanos
(Caetano Veloso)

8. Louco por você
(Caetano Veloso)

9. Cajuína
(Caetano Veloso)

10. Aracaju
(Caetano Veloso, Tomás Improta, Vinicius Cantuária)

11. Badauê
(Môa do Catendê)

12. Os meninos dançam
(Caetano Veloso)



Comentários:
O show fez muito sucesso e já havia um culto ao próprio show com A Outra Banda da Terra. Tem Cajuína, que é linda. As pessoas gostam muito desse disco. Houve uma virada nas vendas. Aí eu comecei a vender grande. Eu gosto mais de Uns, de Caetano, de Transa, e de Jóia. 
É um trabalho com A Outra Banda da Terra, todo produzido por mim, na contramão das lantejoulas de Los Angeles. Adoro a canção Outras Palavras. Gosto dessa fase. Era um tempo alegre. Tem Beleza Pura, inspirada num refrão do Eleomar - "viola, alforria, amor, dinheiro não". É como os pretos da Bahia, tem tudo, dinheiro não. Hoje está na moda. É anti-yuppie, chega a ser óbvia. Depoimento à Marcia Cezimbra - Jornal do Brasil - 16/05/91
 Beleza Pura 
“Tem uma referência direta à canção do Elomar, que eu adoro, que fala 'viola, alforria, amor, dinheiro não'. 'Beleza Pura' é uma saudação ao início da 'tomada' da cidade de Salvador pelos pretos. Ela sempre foi uma cidade com muitos pretos mas, até os anos 70, eles ficavam mais ou menos 'nos seus lugares': puxadores de rede, de xaréu, tocadores de candomblé, pescadores, vendedores de acarajé, todos muito nobres, bonitos, mas cada um no seu lugar tradicional. E, nos anos 70, em grande parte por influência do movimento negro nrte-americano e sul-africano, mas também por desenvolvimento do mundo e do Brasil, os pretos tomaram conta da cidade da Bahia de outra maneira, e 'Beleza Pura' é uma saudação ao início desse acontecimento. Eu sempre estive ligado às origens dessas coisas, por isso jamais poderia sentir a antipatia que os pretensiosos do centro tinham com relação à axé music. Sem falar em 'Atrás do Trio e Elétrico', de anos antes.”
[Caetano Veloso, 2003, Sobre as letras,

Menino do Rio 
“Fiz por encomenda da Baby Consuelo, que me pediu uma música para ela cantar para um cara que ela achava bonito, o Peti. Ele, um surfista aquí do Rio, era muito meu amigo, visitava muito a gente, andávamos juntos, íamos ao cinema. Ele foi lá em casa um dia, e enquanto conversávamos me lembrei do pedido da Baby. Eu estava com o violão e a música assim, conversando com Peti e com Dedé na sala, cantando baixinho, só para mim mesmo, e ficou pronta ali, em poucos minutos. Então mostrei à Baby, que adorou e gravou. Eu gravei também, porque mostrei aos músicos da minha banda e eles adoraram.”

Trilhos Urbanos
Santo Amaro da Purificação é quase na foz do rio Subaé, tanto que lá é comum que se diga “lá em cima, lá embaixo”, ou “fulano mora lá em cima, mora lá embaixo”, embora a região seja plana, pois a referência mais importante é o rio, de modo que as coisas ficam rio acima ou rio abaixo. O cais de Araújo Pinho de que fala a canção era um cais de rio que ficava mais próximo do mar, mas havia outros, todos importantes, pois era atracadouros de grandes saveiros que traziam mercadorias, sobretudo cerâmica de Nazaré das Farinhas, ou passageiros. O rio era navegável por saveiros consideráveis, que vinham até dentro da cidade, no meio mesmo da cidade.

Em Capitães de Areia, de Jorge Amado, Pedro Bala pega um saveiro e vai sozinho para Santo Amaro, vem até o meio da cidade e fica no saveiro olhando as estrelas. O Jorge Amado escreveu isso em 1937, mas eu via esses saveiros chegarem quando era adolescente, com uns dezessete anos. O cais que recebia as cerâmicas de Nazaré ficava defronte do clube Irapuru, onde havia funcionado o ginásio de Santo Amaro, um ginásio privado, antes do estadual ser inaugurado.

Os saveiros atracavam junto da ponte sobre o rio Subaé, no local em que atualmente se vem pela estrada de rodagem, onde também fica a estação de trem. Mais para baixo, passava o bonde, que era puxado a burro. Por isso a canção fala de Trilhos Urbanos, porque era esse o nome da companhia. Esses bondes eu usei até os dezenove anos, mais ou menos. Noutras cidades maiores, aquilo era uma coisa do século XIX, mas permaneceu em Santo Amaro, pois eram lucrativos e atendiam bem à população; não foram eletrificados e se mantiveram até meados dos anos 60.

Santo Amaro também era ligada a Salvador por uma linha de navios, porque o rio Subaé abre num braço de mar já na ponta da cidade, e o bonde ia até o atracadouro do navio, o chamado Porto do Conde. O bonde era a única condução que levava quem chegava de navio até o centro da cidade. Entre uma coisa e outra havia uma usina de álcool, tirado da cana-de-açúcar dali. Em volta não existiam casas nem chão onde construir, pois era um manguezal, atravessado apenas pelos trilhos do bonde. O Porto do Conde, que era de cimento, deve estar lá, provavelmente em ruínas, porque não é usado há muitos anos. “Trilhos urbanos” é sobre essas viagens de bonde.

A letra também faz referência a dois tamarindeiros que ficavam na beira do rio, no cais de Araújo Pinho, que morreram ou foram derrubados, e à visita que o imperador d. Pedro II fez à cidade (a rua lá de baixo, que ele certamente percorreu, passou a se chamar Rua do Imperador). Foi uma visita oficial a Santo Amaro, a primeira cidade a exigir, por meio de sua Câmara de Vereadores, a independência do Brasil, e Cachoeira, outra cidade heroica da independência. Em frente à casa de Araújo Pinho, que era a maior de todas, pois ele era o sujeito mais rico da cidade (a casa está lá, em ruínas, porque o Patrimônio não a salvou, nem a cidade a salvou), havia dois tamarindeiros. O que se diz, e se consolidou como um folclore, é que os cavalos do imperador ficaram amarrados ali, e mais, que ele saltou e fez xixi naquele lugar!

Há também uma menção a Gal, por causa de um show dela que, no Rio, foi considerado o máximo. Chamava-se Gal Tropical. Eu e Dedé fomos ver. E não gostamos. Isso foi um problema para nós dois, porque a imprensa colocava o espetáculo nas alturas, todo mundo adorava, todos os nossos amigos; eu me lembro que Guilherme [Araújo, empresário e produtor do show], que era o diretor, estava orgulhoso; lembro também que Regina Casé achava que o show era o máximo, dizia que era a coisa mais linda do mundo, e todo mundo achava isso. E eu e Dedé não gostamos, achamos tudo posado, uma coisa falsa, e o jeito de cantar muito pré-marcado.

Mas, no final, repentinamente, tinha uma verdadeira epifania. Gal cantava “Balancê”! Mudava a roupa, vinham umas fitas coloridas, era uma coisa! Eu fiquei muito emocionado. E nós estávamos tão fragilizados por não termos gostado antes, que quando vimos aquele número, o “Balancê”, a escolha da música, o jeito que ela cantava, aquelas fitas coloridas, eu e Dedé choramos. Eu chorei tanto de emoção, mais de uma hora seguida, que não conseguia falar com Gal depois. E fiquei com aquilo na cabeça. Tinha sido quase que uma experiência mística. Daí eu falar disso na canção. A canção é isso: Santo Amarom o cais, a “pena de pavão de Krishna”, “vixe Maria”, Nossa Senhora da Purificação, Gal cantando o “Balancê”, o bonde passando, tudo num momento só, atemporal, como num “cinema transcendental”, como se fosse uma experiência mística.

Depoimento a Eucanaã Ferraz - Caetano Veloso, Sobre as letras, 2003

Cajuína 
“Numa excursão pelo Brasil com o show Muito, creio, no final dos anos 70, recebi, no hotel em Teresina, a visita de Dr. Eli, o pai de Torquato. Eu já o conhecia pois ele tinha vindo ao Rio umas duas vezes. Mas era a primeira vez que eu o via depois do suicídio de Torquato.

Torquato estava, de certa forma, afastado das pessoas todas. Mas eu não o via desde minha chegada de Londres: Dedé e eu morávamos na Bahia e ele, no Rio (com temporadas em Teresina, onde descansava das internações a que se submeteu por instabilidade mental agravada, ao que se diz, pelo álcool).

Eu não o vira em Londres: ele estivera na Europa mas voltara ao Brasil justo antes de minha chegada a Londres. Assim, estávamos de fato bastante afastados, embora sem ressentimentos ou hostilidades. Eu queria muito bem a ele. Discordava da atitude agressiva que ele adotou contra o Cinema Novo na coluna que escrevia, mas nunca cheguei sequer a dizer-lhe isso.

No dia em que ele se matou, eu estava recebendo Chico Buarque em Salvador para fazermos aquele show que virou disco famoso. Torquato tinha se aproximado muito de Chico, logo antes do tropicalismo: entre 1966 e 1967. A ponto de estar mais freqüentemente com Chico do que comigo. Chico eu eu recebemos a notícia quando íamos sair para o Teatro Castro Alves. Ficamos abalados e falamos sobre isso. E sobre Torquato ter estado longe e mal.

Mas eu não chorei. Senti uma dureza de ânimo dentro de mim. Me senti um tanto amargo e triste mas pouco sentimental. Quando, anos depois, encontrei Dr. Eli, que sempre foi uma pessoa adorável, parecidíssimo com Torquato, e a quem Torquato amava com grande ternura, essa dureza amarga se desfez. E eu chorei durantes horas, sem parar.

Dr. Eli me consolava, carinhosamente. Levou-me à sua casa. D. Salomé, a mãe de Torquato, estava hospitalizada. Então ficamos só ele e eu na casa. Ele não dizia quase nada. Tirou uma rosa-menina do jardim e me deu. Me mostrou as muitas fotografias de Torquato distribuídas pelas paredes da casa. Serviu cajuína para nós dois. E bebemos lentamente. Durante todo o tempo eu chorava.

Diferentemente do dia da morte de Torquato, eu não estava triste nem amargo. Era um sentimento terno e bom, amoroso, dirigido a Dr. Eli e a Torquato, à vida. Mas era intenso demais e eu chorei. No dia seguinte, já na próxima cidade da excursão, escrevi Cajuína.”


Blog do Jorge Bastos Moreno: Caetano Veloso fala de Cajuína - 6/6/2006

Opinião da casa: 
Um dos grandes discos do Caetano. As pessoas adoram. Não é pra menos, também, aqui tem muita coisa excelente e é um disco consciso, cool. Começa com "Lua de São Jorge", lindíssima. Depois vem "Oração ao tempo" que resolveu ser hit nesse começo de século (com regravações de Djavan em "Ária" de 2008; Rita Ribeiro em "Tecnomacumba a tempo e ao vivo", 2010 e Maria Gadú em "Mais uma página", 2011) e "Menino do Rio" (imortalizada com Baby Consuelo em "Pra enlouquecer", 1979 e por João Gilberto, "João Gilberto Prado Pereira de Oliveira ", 1980). 
Mas há também os lados-b fantásticos: "Vampiro", Elegia" (!!!) e "Badauê" são excepcionais. Minha escolha pessoal, outra top 5 de toda carreira de Caetano, é "Louco por você" com sua jam session inspirada e extensa.
"Cajuína" é marcante também, feita quando Caetano visitou o pai do poeta Torquato Neto e também uma campeã de regravações (de Elba Ramalho em "Elba", 1981 a Cibelle em "The shine of dried eletric leaves", 2006). E por fim,  "Os meninos dançam", que fala sobre todo o ambiente dos Novos Baianos, citando "um por um". Clássico!

4 comentários:

ADEMAR AMANCIO disse...

Adoro,e assim como o Caetano deu a versão definitiva pra "Oração ao tempo" e "Cajuína",a Baby do Brasil nasceu pra cantar "Menino do rio".

Anônimo disse...

cadê o link?

Anônimo disse...

cadê o link?

Thiago Mendes disse...

Mas e o Link?